quarta-feira, outubro 25, 2006

 

Misterios de Sintra



Vamos então por esta entrada abandonada!
Além do torniquete, um silêncio de almocávar (*). Em volta, ninguém! Nem sequer um pássaro! Mas, faz-se sentir um murmúrio, o do vento nas ramagens. A alameda sobe imperceptivelmente: permite, às vezes, o acesso a um outro nível, quase sem esforço. Outras vezes, é preciso escalar alguns degraus deformados, cheios de vácuos, bossas e gibas, e pôr os pés no sítio certo para não tropeçar. O caminho torce; está invadido de ervas e semeado de manchas de sol. O cimo dos choupos está tão folhudo que só se vêem pedaços de céu. E os raios do sol parecem ter rebentado em mil bocados cintilantes. Aqui e ali, grandes penedos de granito, cuja parte superior exibe uma cabeleira de líquenes: estranhas cabeças sem olhos nem orelhas! Menires improvisados, jarros gigantes? Grutas misteriosas colocadas ali não se sabe como, ou será só um capricho da natureza? Ou foram cavadas para a celebração de ritos ocultos nos tempos de outrora. Mistério!
E a alameda prolonga-se, tapete de pedras e terra, bosselada, rachada, atapetada de tudo que a vegetação liberta: folhas, raminhos, bolotas. Aqui e acolá, árvores escorchadas, cascas desfiadas. Eis, lá em baixo, folhas banhadas de sol: frutos de prata de um jardim mítico qualquer, à espera de serem apanhadas por um herói qualquer, recompensando uma prova qualquer!

(*) Almocávar ou almocábar, cemitério dos Mouros

Mohamed Moatassim, natural de Marrocos, vive em Lisboa há alguns anos. Formado em Antropologia, interessa-se pela cultura árabe em Portugal. Visitou o Castelo dos Mouros, por curiosidade, do que resultou este artigo. Trabalha como jornalista independente
http://www.alagamares.net/artigo220.html

Passagens secretas

Existem histórias estranhas acerca da localidade.
Osborn (*), um cruzado inglês, descreve Sintra como uma região "tão enigmática que o vento bastava para engravidar as éguas". Por seu lado, um antigo vigilante do castelo, A.D., sustenta que, neste lugar "as pedras parecem crescer, como as pessoas". Afirma também a existência de passagens subterrâneas, que têm a sua origem na alcáçova. Todavia, acrescenta que não tem nenhuma prova. Muita gente fala disso, mas ninguém sabe localizá-las. Assim, uma galeria daria para o Palácio da Vila, a antiga residência dos Walis (governadores). Com efeito, estes sempre cuidaram da sua segurança, temendo complicações políticas, como por ocasião das duas revoltas mozárabes (**) dos meados do século IX, em Sintra, em consequência de movimentos idênticos em Lisboa. Por conseguinte, era previsível que a residência fosse dotada de corredores secretos que podiam tanto ter a sua origem no Castelo, como levar para outros lugares situados fora da cidade. E esta fica ao pé da montanha, a umas centenas de metros do Castelo! Mas que pensar destas passagens secretas que, supostamente, ligariam a alcáçova ao Convento dos Capuchos, ou aquela que iria ter até à pequena localidade de Rio de Mouro? O enigma fica inteiro e a montanha preserva os seus segredos.
Relíquia do passado, testemunha de uma época volvida, mas cheia de uma carga simbólica, o Castelo foi classificado Monumento Histórico Nacional (***). Mesmo não sendo mais do que uma coroa descorada, ainda rivaliza com o majestoso Palácio da Pena, para o privilégio da celebridade e do prestígio.

(*) Osborn: autor do único texto conhecido acerca da tomada de Lisboa. Participou no assalto à cidade ao lado de D. Afonso Henriques, em 1147.(**) Mozárabes: do árabe "musta'rab", arabizado. Cristãos que adoptaram a língua árabe durante a presença muçulmana na Península Ibérica.(***) 16 de Junho de 1910.

Locais ilustrados no slide abaixo

Comments:
Eu adoro Sintra. Moro perto, passeio por lá muitas vezes, dá vontade de sempre mais. Beijinhos
 
Estará a net a acolher todas as neuroses escondidas no quotidiano?
Bom dia e um beijinho.
 
Faz tempo que ando para visitar sintra...
Um beijo grande
 
Em Sintra no caminho para as muralhas existe um banco em pedra que passa despercbido, mas um tesouro. Esse banco guarda as cinzas do escritor Ferreira de Castro.

Um lugar divino!

Excelente post.
 
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tem graça , sempre pensei que moravas em Lisboa , la paraos lados do Parque das Naç~~oes...e afinal somos vizinhas.
Boa vizinhança, entao...
 
pianola

ele ha gente muito neurotica que subtilmente tenta desfarçar-se sob a capa de um blog...
 
sorrisos

Sintra e uma maravilha, a serra os arredores a vila... tudo ! Patrimonio Mundial!


continuo sem poder ir ao teu blog
 
Maria
nao sabia q Ferreira de Castro esava ali ...

misterios de Sintra !
beijinhos
 
Ai tenho que parar aqui com mais tempo, sabes o que eu gosto dessa magia... Bnoite hoje
 
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