quarta-feira, junho 14, 2006

 

Não se deve deixar as coisas pela metade...

O Gato e o pássaro
Uma cidade escuta desolada
O canto de um pássaro ferido
É o único pássaro da cidade
Que o devorou pela metade
E o pássaro pára de cantar
O gato pára de ronronar
E de lamber o focinho
E a cidade prepara para o pássaro
Maravilhosos funerais
E o gato que foi convidado
Segue o caixãozinho de palha
Em que deitado está o pássaro morto
Levado por uma menina
Que não pára de chorar
Se soubesse que você ia sofrer tanto
Lhe diz o gato
Teria comido ele todinho
E depois teria te dito
Que tinha visto ele voar
Voar até o fim do mundo
Lá onde o longe é tão longe
Que de lá não se volta mais
Você teria sofrido menos
Sentiria apenas tristeza e saudades

Não se deve deixar as coisas pela metade.




PÁGINA DE ESCRITA

  • Dois e dois quatro quatro e quatro
  • oito oito e oito dezasseis.
  • Outra vez! diz o mestre.
  • Dois e dois quatro quatro e quatro oito
  • oito e oito dezasseis.
  • Olha o pássaro-lira passeando pelo céu!
  • O menino o vê.
  • O menino o ouve.
  • O menino pede: vem cá
  • brinca comigo meu amigo!
  • Então o pássaro vem para brincar também:
  • dois e dois quatro...
  • Outra vez! diz o mestre
  • e o menino repete
  • e o pássaro se mete...
  • Quatro e quatro oito
  • oito e oito dezasseis
  • e dezasseis e dezasseis?
  • Quem não souber perde a vez
  • mesmo se for trinta e dois
  • de qualquer modo já se foi.
  • Mas o menino o ocultou
  • na sua carteira e todos os meninos ouvem
  • quando ele pia
  • e todos os meninos
  • ouvem sua melodia
  • e oito e oito por sua vez vai embora
  • e quatro e quatro e dois e dois
  • por sua vez vai dando o fora
  • e um e um não faz nem um nem dois
  • pois um a um também escapou na hora.
  • E o pássaro-lira apronta
  • e o menino vibra
  • e o mestre mete bronca:
  • Não vai parar de bancar o palhaço?
  • Mas os meninos todos
  • ouvem a melodia
  • e as paredes da sala tranquilamente arriam.
  • E as vidraças tornam-se areia
  • a tinta volta a ser água
  • torna-se árvore a carteira
  • o giz volta a ser rocha
  • a pena de escrever torna a ser pássaro.

Poemas de Jacques Prévert


Comments:
Ah Prévert e os seus pássaros, os seus meninos, os seus voos que ainda nos emprestam a leveza dos sonhos bons. Aos 16 anos também tive um namorado poeta. E hoje aqui estamos as duas numa partilha de coisas bonitas.
Muitos beijos.
Licínia
 
Ah Licinia ,
esses namorados partiram

mas pelo menos deixaram -nos a poesia, os meninos , os pássaros

e sorrisos...

beijos para ti . e cerejas.
 
Olá
que lindo é sonhar com Prévert... um post muito bem concebido.. passa um bom dia com muitos sonhos, quiça sonhes com voos.. Bjhs
 
Sempre a aprender.
Nem calculas o sentido que faz...
beijo
 
Os poemas que escolheste...têm uma componente que considero extraordinária: dão uma lição de vida de forma carinhosa e subtil!

Beijinho:)
 
Não se deve deixar as coisas pela metade... as histórias mal resolvidas perseguem-nos sempre...
 
:) Poemas de pássaros voadores, com penas de palavras. ;) Lindo. Um bom feriado.
 
greentea:

Será que nós somos jurássicas? Cada vez que te visito sinto-me abençoada. Estas poesias e fotos são fantásticas e calam n'alma bem fundo.

Bom feriado, que feriado? Bom feriado mesmo assim!
 
...um cantinho delicioso, onde a poesia, as palavras e as mensagens convivem numa partilha muito equilibrada.
um abraço
 
Olha ... não conhecia Prévert, mas é cá dos nossos!
dos que ama a vida... o sonho... as asas dos pássaros... as cerejeiras... dos que tem uma criança no coração e um coração de criança... tão viva!!!!

adorei! ADOREI!!!!!
obrigada!
beijinhos!
dias muito, muito felizes amiga!
 
E o pássaro tornou a cantar
E pôs o gato de sobreaviso
O mestre começou a perguntar:
Onde está o que é preciso?

E o menino encabulado disse:
O pássaro canta tão bem!...
E mesmo que eu já decidisse
Onde entra o gato também?

É que sem esta sabedoria
A escola não tem sentido
Falta-lhe a plena alegria
Falta-lhe o caminho perdido

O mestre escola calou-se
Ficou estático emudeceu
A língua ao céu da boca colou-se
Pigarreou e depois desapareceu

Bonito e sugestivo texto amiga Greentea

Um abraço

José António
 
Aquela poesia primeira ai de cima eh linda e comovente.
Obrigada pela sua visitinha ao meu blog. volte sempre!
 
Oi amiga blogueira!
Hoje tentei postar mais cedo aqui, mas esse Blogger tá um horror. Sempre dando problemas pra abrir as páginas.
Adorei os poemas e concordo plenamente que não devemos deixar as coisas pela metade. Ja sofri muito por ter deixado algumas coisas na minha vida sem estar completamente resolvidas. Mas hoje, como sou "Um Ser Diferente", vou até o fim em tudo! Comigo, ou resolve logo, ou resolve! Não tem outra chance! Se é pra comer passarinho, que coma inteiro! Hahahaha.
Beijos pra você e um ótimo feriado!
Tom
 
Greentea, na verdade, os gatos não são inimigos dos pássaros, seguem apenas a lei da sua natureza. Seria tão bom se eles pudessem deixar os passarinhos em paz :)) Beijos da Ursa
PS: Adorei o texto! E vim tomar um pouco de chá verde ;))
 
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