segunda-feira, abril 17, 2006

 

onde quer que estejas

Trouxeste-me ao colo quando outros me puseram de lado , me esqueceram. Contaste-me histórias, brincaste, pulaste… Lembras-te daquele dia, daquela noite em que ficaste lá em casa a tomar conta de nós porque os meus Pais iam sair? Nós deitámo-nos cedo como era de costume, tu vieste contar uma história e ficaste, ficaste até eles chegarem depois do espectáculo aonde tinham ido. Era tarde e o meu pai não gostou da brincadeira, porque era tarde demais.

Outro dia peguei-te na mão. Estava fria, sem vida e estive a massajá-la, a confortar-te um pouco enquanto falava contigo. Talvez não tivesses dado conta. Olhei os teus pés, fora do lençol, por causa da febre – disse a enfermeira. Tens os dedos compridos – dedos de artista como os das mãos. Pensei nas tuas conchas, nos barcos e nas caravelas que fizeste . Lindos, tão lindos e tão perfeitos. Lembrei-me quando íamos a Cacilhas, de barco, atravessando o Tejo. E daquele dia, em casa da Avó, quando fui espreitar ao teu quarto – estavas doente, também – e vi lá uma senhora com um casaco encarnado.
Eles não queriam que nós soubéssemos mas eu fui perguntar à Celeste. A Celeste sabia sempre essas coisas porque as empregadas sabem tudo o que se passa. Pois então era a tua namorada, a mesma que é hoje a mãe dos teus filhos, essa mesma, de quem eles não gostavam e tudo fizeram para a afastar; mas tu não desististe e casaste , apesar deles não terem ido ao casamento , de o meu pai e a Avó se oporem, de te terem criticado…

Não te bastava já não teres mais ninguém, teres sido criado ora aqui ora ali sem pai nem mãe nem irmã, que os perdeste todos, outras gripes que não a das aves os levaram naqueles anos 30 antes da Guerra. E tu ficaste. Ora interno no Colégio dos Padres ora em casa da Tia ou na da Avó. Voltaste para Lisboa e à força que havias de tirar o Curso não sei de quê e que a Mariazinha dos Quaresmas é que era a noiva ideal. Mas tu disseste não e arranjaste emprego e casaste e saíste lá de casa. Foste para longe, eu sei – para não os veres , para não se meterem na tua vida.

Lembro-me de lá ir , já tinhas os teus dois filhos e brincávamos com eles. E dávamos passeios pelo campo, íamos ao rio a pé, íamos à vila lanchar, comprar qualquer coisa. Noutros dias estavas a trabalhar e íamos lá espreitar-te à janela, no meio daquelas maquinetas complicadas que mandavam recados, telegramas , telexes e coisas dessas…

Depois, já mais tarde vinhas a Lisboa e então podíamos ir ao cinema ver filmes do Oeste, como tu gostavas. Ou do Cantiflas, ou do Charlot.

Não se telefonava muito nessa época. Por vezes estavas muito tempo sem vir a Lisboa, desaparecias. Desapareceste. Para não os veres, não os ouvires a criticarem o que não tinham nada que criticar. E eu saí de cena , também, cansada daquelas cenas. Éramos iguais na solidão que sentíamos, na necessidade de não sermos falsos hipócritas, de apenas querermos que nos amassem. Tu foste para a América, eu para África.

Encontraste uma nova família em pessoas simples, correctas, ligadas à terra, oriundas de uma pequena aldeia onde o seu nome era conhecido como gente de bem; mas não tinham títulos nem brasões nem fama mas com eles te reencontraste. Eu também…

Passaram muitos anos sem sabermos um do outro, sem sabermos onde estávamos e um dia , vi-te de novo quando os primos se juntaram para uma qualquer comemoração. E visitámo-nos. Fui passar o dia dos meus anos contigo, fomos à Feira, a minha filha esteve uns dias em tua casa tal como eu tinha estado também. E voltámos muitas vezes. E vieste também passar o dia connosco. E gostaste!

Agora estás nessa cama de hospital, adormecido, prostrado, cheio de tubos e de máquinas à tua volta. E nós não entendemos e não queremos que estejas assim. Porque já sofreste tanto na tua vida, foste tão mal- amado por alguns, perdeste os teus pais, a tua irmã pequenina e ainda tens que estar a sofrer mais do coração – a mudar de válvulas e de veias ou de artérias, como se fosses um carro a que se muda o óleo ou se faz a revisão dos 100.000km.
Deitei-me a pensar em ti e não consegui adormecer. Levantei-me e vim escrever. Para ti. Para te enviar toda a Força, todo o Amor, toda a Luz, que possa curar-te, dar-te energias suficientes para ultrapassares mais este mau momento. Para que continues connosco, sempre, Duarte Alexandre.
12Março2006


Cheguei agora a casa. Falei com a tua neta, com a Cátia. Estava em tua casa, mas tu não estás lá, não estarás mais. Ontem também tinha telefonado tal como em todos os outros ontem , desde que entraste para o Hospital. Era dia 16 de Abril, ontem , domingo de Páscoa. A Mizé atendeu-me. A mesma Mizé que eu vi no berço em casa da Avó , com alguns meses apenas e uns olhos verdes, lindos, lindos . E os cabelos pretos. E um mano baboso de volta dela , um pouco mais velho.
E foi a Mizé que me disse que tu nos tinhas deixado, que tinhas partido para um outro local que não sabemos onde é, que te tinhas cansado de lutar com os tubos e os aparelhos e os médicos. E partiste, sem amanhã nem ontem, mas com um caminho bem definido, que nós não conhecemos. Aparentemente, deixaste-nos. Fisicamente , quero eu dizer. Na minha memória permanecerão para sempre as imagens do último dia em que estive a conversar contigo no Hospital, na véspera da operação. E levei-te flores. E brincámos e rimos juntos, como sempre o fizemos, porque não precisávamos de muitas falas para nos entendermos. Tal como agora…
Algures, onde quer que estejas, sei que continuarás a dar-me a tua mão e me ajudarás uma vez mais a transpor as barreiras que se atravessarem no meu caminho, levar-me-às contigo nos teus passeios mundo fora , contar-me-às histórias de encantar, como antigamente, para eu adormecer.
Lá, onde quer que estejas seguirás os passos de todos aqueles que te são tão queridos e não permitirás que nada de mal lhes aconteça até que

“um dia
Quando as buganvílias alegremente florirem
Quando as bimbas entoarem hinos de madrugada nos capinzais
Quando a sombra da mulembeiras for mais boa
Quando todos os que isoladamente padecemos
Nos encontrarmos iguais como antigamente

unidos nas ânsias, nas aventuras, nas esperanças
Vamos então fazer um grande desafio…”

(Poema Infância de António Jacinto)

Comments:
Bom dia Alegria...

Também tenho muitas saudades deles!

Um abraço grande.
 
Minha querida amiga,
Faço minhas todas as palavras, que tens vindo a dizer-me ao longo do tempo, em que começamos a falar-nos.
:((( um beijo
 
é isso noite, escrevi para mim e para ti
um dia ...


vamos fazer um grande desafio
 
Que bom ser lembrado deste modo. Um beijo.
 
desafio-te a não perderes o teu magnifico sentido da via. o que tenho bebido aqui. nos teus post sempre tão verdes....de luas faseadas entre o bom gosto e a sempre inteligência.


beijo-te.
 
adorei o teu texto comoveu me.
Confesso não ter percebido a mensagem que me deixas te mas obrigada.
 
as velas ardem até ao fim

depois

acendem-se

de novo


noutras paragens.
 
obrigada, mendes ferreira

hoje apetecia-me ouvir o Mário Viegas em "Vem Serenidade" e entrar pelos horizontes do silêncio e sentir os pontos de LUZ que existem no nosso organismo , como a eveontheclouds os descreve no seu blog
hoje...
 
Onde quer que seja, será perto, com certeza.

Sabes, acredito que não vamos a lugar nenhum, porque não há lugar algum aonde ir fora deste universo-casa.

O corpo vai, mas o Espírito fica.
A forma é impermanente, como o ciclo da água... mas nunca deixa de ser água... em curso, em movimento... e permanece de facto, dentro, fora e através de nós.

Espero que estejas bem, dentro do possível...

beijos
tem um dia cheio de amor
 
tudo permanece dentro do Universo, do universo-casa como tu lhe chamas, num ciclo que poderá ser identico ao da água mas tudo permanece tudo se recria tudo se transforma, sa.ra
vê o blog da eveontheclouds, hoje.
fala de pontos de LUZ que temos em nós, nas nossas células, e que atingem temperaturas próximas das do sol - que energias temos dentro de nós e nós sem o sabermos...
chamemos-lhe AMOR, LUZ o que cada um quizer
mas saibamos desenvolver bem esses pontos
focando-os essencialmente em construir um mundo melhor
para todos
um beijo para ti, sa.ra
 
vi ontem o Eveon... já tinha lido qq coisa muito semelhante... que dizia o mesmo: que há luz no nosso corpo... que cada célula é um ponto de luz... que somos sol, estelas... q somos iluminados de dentro para fora, assim!

para mim, faz todo o sentido... como disse no "eve" acredito que essa fonte de luz, de energia auto-gerada é o AMOR... aquilo que nos dá vida e nos faz permanecer Vivos... ânimo para viver, sonhar... o amor é aquilo que nos move... e se nos move é uma energia!
Amor é energia, tal como o Sol!


por isso o culto do Sol, é... sempre foi... o culto da luz interior também... e o sonho, a vontade e o caminho de ser-se Sol, ser-se d'Ouro!

beijos!
 
que fique então essa mensagem de LUZ

ser-se SOL

ser-se d'OURO

que o SOL ilumine o teu dia e os nossos caminhos

todos os dias, sa.ra

agora vou ter de sair para fazer o último percurso de alguém que me é muito querido e espero que mantenha sempre com ele a LUZ DO SOL e possa pulverizar de OURO os nosos caminhos aqui neste planeta.
 
Lindo! Fiquei presa da primeira à última palavra. Não achei grande o teu post. Teria lido mais, muito mais. Estamos na idade de recordar aqueles que nos marcaram e com quem nos identificámos mais. Também tenho recordações semelhantes de uma tia. Que já partiu e está à espera que, um dia, nos encontremos. Sem pressa! Por enquanto protege-me,protege-nos a todos nós seus familiares muito queridos.
Um beijo
 
um beijo muito muito..
 
Fiquei acarinhada por tua mensagem em ideália. Vim agradecer e me comovi às lágrimas. Que coisa boa vocês terem tido um ao outro!
Como disse alfazema, em dado momento começamos a refazer a memória dos que nos marcaram a existência. Acho que o caminho percorrido começa a nos aproximar deles novamente talvez preparando a viagem de retorno...
Que este ultimo percurso de seu amigo seja cheio da Luz que espalhou em vida. Muitas bençãos para ti. Um beijo, da Angela.
 
tu dás cabo de mim! lindo e tocante...
bjo
 
Onde quer que estejas, Lua. noite de paz para ti. Saudades de ti um tempo com o outro que agora parte, tanta dor. Tão pouco para dizer tão fundo do teu amor. Talvez agora ele não sofra mais.
 
Greentea, estou contigo no teu desgosto, na saudade do teu querido amigo. Sabes o que queria dizer-te, que a vida é uma passagem, que esssa partida não é o fim...Felizmente acreditamos, não é?
Grande beijinho
 
texto lindissimo, momentos de felicidade outros de tristeza, fiquei incomodado (mas foi bom, é bom ficar incomodado)
besitos
 
Saludos de Chile :)
Yo tengo tres gatos ¡miau! y no pienso abandonarlos...ellos nos adoptaron, en realidad.
 
sereno...bonito. b'dia, bjinho.
 
Bom dia greentea,
Acorda com o brilho o som e o cheiro da primavera.


Preciso de falar ctg
Um beijo
 
gracias por tus saludos
gracias por felicitarme
lo de hoy un lindo sueño, mañana me hospitalizan vuelvo en tres dias ahi te volvere a saludar
gracias por tu compañia


besos y sueños
 
Penso que já te tinha dito o quanto gosto do que escreves, mas este texto é muito especial, e comoveu-me .É maravilhoso ter alguém que escreva assim sobre nós.De certeza que essa pessoa mereceu todas as palavras que escreveste, e tomara que todos sejamos amados assim por alguém.A amizade que nutres por ela, é realmente divina.
 
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