terça-feira, março 14, 2006

 

Porcalhota

O break rodava na estrada de Benfica : iam passando muros enramados de quintas, casarões tristonhos de vidraças quebradas, vendas com o seu maço de cigarros a porta dependurado de uma guita : e a menor árvore, qualquer bocado de relva com papoulas, um fugitivo longe de colina verde, encantavam Cruges. Há que tempos que ele não via o campo! Pouco a pouco o Sol elevara-se.
Felizmente estavam chegando à Porcalhota.

(Os Maias de Eça de Queiroz)


Estação da CP da Porcalhota passa a designar-se "Amadora"
Portaria que autoriza a alteração do nome da estação da CP da Porcalhota, na Linha de Lisboa-Sintra, inaugurada em 2 de Abril de 1887, para "Amadora". A Linha de Sintra, inaugurada em 2 de Julho de 1873, com 26 km de extensão, servia as estações de Sete Rios, Benfica, Porcalhota (Amadora), Ponte de Carenque, Queluz, Cacém, Rio de Mouro, Ranholas e Sintra – demorando a viagem cerca de duas horas, utilizando o chamado sistema Larmanjat (do nome do seu inventor, o francês J. Larmanjat: tratava-se de um caminho de ferro monocarril, cuja via era constituída por um carril central e duas passadeiras de madeira, sendo o conjunto suportado por travessas de madeira). A Porcalhota, fora, durante séculos, estância de veraneio de famílias abastadas da capital, passando a Amadora em 28 de Outubro de 1907, pela junção da Porcalhota, Amadora e Venteia.
(extractos da Biblioteca da Fundação Mário Soares)
















Se antigamente se circulava numa composição barulhenta e fumegante, hoje é num moderno comboio com ar condicionado e por uma linha quase toda renovada que se chega a Sintra. No entanto, houve algo que nunca se alterou: o inicio desta jornada continua a fazer-se na centenária estação do rossio, actual ponto de passagem obrigatório no quotidiano de muitos habitantes dos arredores de Lisboa. (este texto está desactualizado)
É perfeitamente natural que alguém que pretenda passear-se no meio da enorme multidão, apressada para chegar ao emprego, se sinta um bocado deslocada. No entanto vale a pena o esforço para regressar ao passado e imaginar os tempos gloriosos dos comboios a vapor sendo engolidos pela garganta escura do túnel.


Os Primeiros Passos:

A ligação ferroviária a Sintra começou com um fracasso... viveu nos sonhos de um inventor francês que baptizou com o seu nome um projecto revolucionário mas irrealizável atendendo às tecnologias da época. O Larmanjat, um monorail, que acentava na teoria de uma roda motriz central a circular sobre um carril e apoiado por rodas laterais em trilhos de madeira. Desta forma pretendia-se aproveitar as estradas e vias já existentes. No entanto, se a ideia em si era genial... pô-la em prática era obra de deuses. Foi o duque de Saldanha, que assistiu às primeiras tentativas com algum sucesso em França, quem, em 1860, trouxe a ideia para Portugal, obtendo uma licença em nome da "The Lisbon Steam Tramways Company".
Depois de muitas experiências, a maioria das quais atribuladas, no dia 2 de Julho de 1873, pelas 9:00, partia da estação do Rego um comboio Larmanjat que iria inaugurar a Linha de Sintra. A viagem durou 1h55m, tendo a composição regressado ao Rego às 16:15 sem ter sofrido qualquer acidente. A linha seria aberta ao público 3 dias depois.
Foi necessário esperar apenas uns meses para que fosse aberta uma outra linha, no mesmo sistema, a fazer a ligação entre Lisboa e Torres Vedras. No entanto, pouco tempo depois, o projecto começou a mostrar os primeiros sinais de fracasso. Os descarrilamentos eram muito frequentes, as avarias técnicas também e os níveis de desconforto faziam muitos dos passageiros voltar às diligencias. A chuva também se revelou um grande problema. Com os trilhos molhados as máquinas tinham muitas dificuldades em vencer as rampas, tornando-se frequentemente necessário que os passageiros abandonassem as carruagens e empurrassem as composições.
Por estas e por outras razões, o Larmanjat deixou definitivamente de circular em 1877 deitando por terra o empreendimento do duque de Saldanha.


O Comboio da Companhia Real:
Foi então preciso esperar uma década, até ao dia 2 de abril de 1887, para que Sintra visse chegar um transporte sério e capaz de enfrentar o futuro: o comboio da Companhia Real.
Partia de Alcântara, onde se situava o términos de uma linha de "americanos" que faziam o transporte de passageiros desde o centro da cidade. Estes "americanos", antepassados dos actuais "eléctricos" eram explorados pela CCFL (Companhia dos Carris de Ferro de Lisboa) e consistiam em pequenas unidades abertas aos lados, que circulavam sobre carris e eram traccionados por mulas ou burros sendo que, curiosamente, algumas destas unidades provinham das antigas carruagens dos Larmanjat.


A chegada a Sintra do comboio resultou da construção da Linha do Oeste (Torres Vedras, Caldas da Rainha, Leiria e Figueira da Foz) fazendo a bifurcação do ramal de Sintra nos arredores de Meleças, um pouco depois da ainda existente estação do Cacem. Três anos depois, em 11 de julho de 1890, era inaugurada a estação do rossio e o túnel, uma incrível obra de engenharia, que atravessa o centro da cidade desembocando (8 minutos depois) em Campolide.
A Real Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses mandou construir este edifício, bem como um que se encontra imediatamente ao lado (actual Hotel Avenida Palace) e que, inicialmente, se destinou à instalação dos escritórios. O enorme desnível entre as ruas e as linhas do caminho de ferro foram então vencidos por um sistema de escadas e rampas (hoje escondido pelas estruturas metálicas que servem as obras do metropolitano).

Os Dias de Hoje:
Com a crescente procura, o número de passageiros tornou-se excessivamente elevado para as condições da linha. Com vista a resolver este problema muitas intervenções têm sido feitas.
O actual projecto de remodelação visa pontos importantes como a remodelação das estações e apeadeiros, a quadruplicação da via até ao Cacem e a supressão das passagens de nível existentes. Intervenções anteriormente realizadas permitiram o uso de composições mais compridas (2xUQE - 192 metros) e a implementação de sistemas de segurança como o CONVEL e o rádio Solo-Comboio.
A Linha de Sintra é actualmente a mais movimentada do país (e uma das mais movimentadas linhas de suburbanos da Europa), transportando todos os dias varias dezenas de milhar de passageiros em cerca de 14 composições por hora



















(www.cp.pt)

Comments:
Fiquei elucidado!

Obrigado, Greenthéa!

Bji
 
gostaste tanto de quê?
dos teus ultimos posts...eu tambem
Ate logo minmha querida.
 
b'jinhosss,,,,
 
É curioso que há tempo, em conversa de café, o tema foi os comboios.Douro, Índia... O Expresso Oriente! Uma amiga lembrou-se da importância dos comboios em África (Angola) e descreveu-nos muitas impressões e sensações saudosas. Confesso que só andei de comboio por terras suiças, em portugal nunca (uma grande lacuna).
 
há uns anos, fui de Porto a Pedras Salgadas de comboio - é espectacular, não sei se a linha ainda funciona; eram carruagens antigas ainda a carvão, via única e o Douro lá em baixo no meio das fragas, dos penhascos e da vinha...
 
Belo Post...parabéns...
gostei de ler.


bjs
 
Un abrazo amiga. Interesantes fotografías. Excelentes textos.
 
que viagem (as coisas que se aprendem aqui)!
"mudam-se os tempos, mudam-se as vontades"... gosto mais de "Amadora"... Porcalhota é carinhoso, mas ainda assim prefiro amadora!
beijinhos!
um dia feliz
 
eu é que vou aprendendo com estas pesquisas; estou a divertir-me imenso como diz a t.
 
gosto de comboios
gosto de eça
gosto de te ler
 
e eu de ler os teus comments feniana. obrigada
 
olhos da noite, guarda bem as "Colares" q tens na garrafeira. são preciosidades e se têm + de 20 anos devem estar divinas!
 
curioso ver a evolução viária(ferro e não só)à luz destes textos. Bjs e ;)
 
Texto que me trouxe lembranças...

Há quanto tempo não viajo de comboio!...

Viajar pelo Douro, de comboio, quando as amendoeiras estão em flor é um espectáculo maravilhoso.

Já viajei muito de comboio, para ir trabalhar. Fiz amizades, muito me diverti com as conversas que se tinha, de tudo se falava...

Gosto destes teus textos. Continua.

~*Um beijo*~
 
greentea
esqueceste? conheceste ou não o Casal Mindelo?
 
Acho porcalhota mais poético. E o Rossio que nunca mais abre, que tristeza...
 
Muy bellas fotos, un gusto conocer tu blog.
Saludos y felicitaciones
 
estrela, o q é Casal Mindelo ? é um vinho ou um lugar, perguntei-te no post anterior ...
mas penso q não conheço o que é.
 
pablito vens de longe mas tens um blog mui giro
 
obrigada Greentea. Eu adoro Comboios! E em tua homenagem fui rever os albuns de umas belíssimas viagens de comboio.Em 2001 fui de Mumbai a Goa, 21 dias de comboio, passando por chenai e cochin.... e outra em 2002, bem mais curta, a Florença... confirmo: amo comboios! :)
 
Só vim ver as fotos...agradou-me a de Colares...depois passo para ler..não sei quando mas passo em breve...

Abraços
 
Trabalho notável o que vens fazendo. Estou a aprender imensa coisa. O passado é realmente uma personagem interessante. Mexe-se no nosso presente com muita vivacidade, nem parece que já vem de viagem longa. :-)
M
 
Estou adorando muito, muito isto tudo! Parabéns mais uma vez pelo teu blog. Vou colocá-lo nos meus links, ok?
Beijinhos
 
Bom dia amiga,
ok pensei que conhecesses, não é vinho...depois explico.
Um bom despertar, aqui ja se ouvem os passarinhos...mas juntamente com o barulhos do transito a entrar em stress..
Um beijinho
 
O teu posts fez-me recuar no tempo, quando eu utilizava o comboio, ali atrás da estrada de Benfica ,e descia na estação do Rossio para uma tarde de passeio, compras, cinema...
Já lá vão mais de trinta anos!
Um beijo
 
alfazema , há trinta anos a época era outra, outro estilo de compras, de cinema, de baixa - sim, porque a baixa era outra. agora raramente lá vou às compras e passear...nem ao Rossio

estrela - não sei mesmo o q é o Casal Mindelo

aea - estás à vontade. ainda bem q gostaste!
 
Meus caros: conhecem o cº do Lena? Caso não pesquisem e vão decerto deliciar-se c/ as aventuras dessa linha. para que servia, onde nascia e onde acabava. outras linhas ouve, umas prestaram serviço outras não. uma ouve que esteve montada durante algum tempo e nunca lá passou nhenhum comboio de Régua a Lamego. (um amante do caminho de ferro)
 
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