sexta-feira, março 10, 2006

 

Kapikuas

Para a Sara - nascida a 10Março1988
… porque sempre a amou desde aquele dia em que voltava de uma longa viagem. Estivera ausente uns quatro meses e apenas a vira à nascença e para a levar ao pediatra na consulta dos oito dias. Depois a mãe trouxera-a de volta, sozinha, para casa, porque ele tinha de regressar ao seu trabalho em África . Naquele dia, Sara estava sentada no seu carrinho, à porta de casa, e ao vê-lo entrar estendeu os bracinhos e dobrou o riso de alegria, como se o conhecesse desde sempre.



Para a Jú - nascida a 10Março1944
Duas mulheres, duas vidas, as mesmas origens , a mesma familia, a mesma aldeia sempre a aldeia.E elas.Maria de Jesus tem seis filhos. Sara, quatro. Quarta classe à pressa que não havia vagar nem escola para mais . Os trabalhos de casa acabados debaixo do castanheiro a apanhar as castanhas mais grossas que caiam para os outros não as levarem. A faina do campo antes de ir para a escola, as brincadeiras era subir a ladeira carregadas com os cestos ou tomar conta de algum irmão mais novo ou ir levar a merenda aos homens ou ir à Guarda a pé, para poupar no dinheiro do comboio. Ou cozer pão no forno da aldeia ou ir lavar a roupa ao rio ou as entranhas do porco, para sustento do ano.Domésticas ? Andaram ao sol e ao vento, ao frio e à chuva. Trabalharam ao lado dos maridos, produziram tanto ou mais do que eles e criaram os filhos e trataram da casa . E lavaram e passaram e vestiram remendaram cozinharam levaram os filhos à vacina e ao posto por montes e vales até ao apeadeiro mais próximo que nesse tempo não havia carros. E daqueles rostos sai sempre um sorriso, uma doce candura, nunca uma injúria uma imprecação um mau agoiro. Os filhos cresceram estudaram fora quase todos têm uma licenciatura começam a aparecer os netos. E todos voltam para passar o fim de semana as férias o natal para se sentarem à roda da lareira junto à saia da mãe. E o sorriso surge sempre , vigoroso , enérgico mas sem grandes euforias, quando chegam quando partem sempre dispostas a acolhê-los como recebem mais um irmão ou sobrinho em qualquer momento. A mesma paz, a mesma ternura. A mesma determinação e respeito com que acolhem outras formas de vida que não foram as suas , outras ideias, outras culturas, outras gerações que se foram infiltrando sinuosamente pelas estreitas ruas da aldeia e as levam para além do riacho, dos morros, das cercanias do castelo que outrora dominava a entrada do Povo.

Comments:
que retrato tão bonito! Adorei! Conheço muito bem essas " pessoas". Obrigada, excelente!
 
Olha venho trazer-te uma triste kapikua.
O hugo sempre disse á joana que ela casava os anos este ano. Dizia montes de vezes, e...
bem...mas cada vez está a ficar melhor o teu cantinho, mais arejado, tranquilo, isto são ares de Sintra, que espalhas aqui?
Tbem te quero dizer, que tenho imenso que fazer, pensas que não tenho? já comecei devagarinho.
Tenho uma familia numerosa, agora vivemos todos muito perto uns dos outros, eu é que preciso do meu espaço.Já antes me invadiam a casa ao fim de semana, agora tbem. Sabes nunca tive muito tempo para mim, para estar sozinha, por isso me isolo agora um pouco.Está a saber-me muito bem.
Um dia trocamos email e mostro-te a minha vida profissional.
Por vontade do patrão ja la estava há séculos. Mas tem que ir com calma.
Bom fim de semana amiga
 
histórias de mulheres, história de gente como nós, uma das imagens faz me lembrar o castelo de S. Jorge, nao atentei bem, mas acho que até foi de lá que a tiraram...beijo
 
legionária, agradeço-te a visita mas fui visitar-te e lamento dizer-te que não te consegui ler. porquê o escuro tão escuro que se não vê?...
andei aqui uns poucos dias a dissertar sobre cromoterafia e afinal vem-me sempre o escuro ao caminho. Ilumina-te, clareia a mente e o blog para eu te poder ler!
Bjs.
j´te respondo , noite.
 
Muito bonito!
Beijinhos e bom fim-de-semana!
Está sol, a neblina há-de lavantar-se lá para as bandas de Sintra. Espero, para render o passeio... tenho fome de Sol e relva!
 
......amo todo e qualquer retrato de vida, estes que aqui colocaste, são lindos, as cores com que foram escritos, são suaves mas intensas.....
Beijinho
 
44, 88, 10 de Março.
Duas vidas, duas flores brotando "separadas" por dois algarismos curiosos…
Muitos casos por aí, contados de formas diferentes, mas deixando no ar um aroma de kapikua…
 
eu vim aqui ter um pouco ao acaso e gostei muito do que li. dei por aí uma volta e vi a receita de feijão com óleo de palma. fez-me lembrar o que eu comia em Angola. vou repetir.
um abraço
graziela
 
B'noite e bjinho. ternurento.
 
As tuas histórias têm vida, ternura,ritmo. Sabe bem, ler-te!
Bjinho
 
Então parabéns a Sara e à Ju!

Deixo-te um sorriso, Green...
 
Belos textos, belas homenagens!!
 
Olha amiga voltei,em silencio pela noite, é quando aprecio com mais calma os posts.
Sabes que ao ler-te, fazes-me lembrar a Susana Tamaro, porque descreves muito bem, a vida das coisas da natureza. Poe exemplo, falas de ladeiras, de arvores de flores de cheiros, até dos frutos, como se tudo o que escreves tivesse vida aqui por palavras. Já era para te dizer isto. Mas tem ficado adiado. Eu não respeito aquilo (reduzir comentarios). não sei o que me da´...começo e nunca mais paro. É agora.
Bom fim de semana e muitos beijinhos
 
Gostei! Gostei! Gostei!
Por momentos regressei à minha terra nas faldas da serra que separa o Alentejo do Algarve. E troxeste-me à memória os tempos da minha avó e da "mãe-vó" assim se chamava aqui a nossa bisavó. Tempos duros, em que as mulheres, carregadas de filhos, faziam de tudo como tu dizes.Uma lágrima páira no canto do olho, a tal dor contida no peito está aqui mas Elas já cá não estão. Obrigada por este momento lindo e simultaneamente tão comovente para mim.
É hora de recordações. É a ternura da idade.
Beijo grande
 
para a estrela (da tarde)
tb preciso do meu espaço. houve épocas em q o espaço, o vazio à minha volta me sufocavam, a desertificação, chamesmo-lhe assim... comecei a fazer malha, tricots linhas desenhos complicados que se entrelaçavam como as vidas de ceda um de nós;
por vezes, pintava aguarelas ou gouaches;
fazia fotos e ia pela natureza fora, pela praia, pelos montes sem destino e perdia-me a olhar um caracol uma formiga uma teia de aranha;um dia salvei uma abelha da morte certa enredada q estava na teia...
depois arranjei um cão e depois uma cadela e depois muitos cachorros
e por aí fora...até encontrar (de novo ) um sentido para os passos perdidos!

acho q nunca li Susana Tamaro. li pouco dos modernos escritores. Gosto muito de Isabel Allende e de Garcia Marquez - Cem Anos de Solidão ou o Amor nos Tempos do Cólera. Não sei qual deles prefiro.
Tb prefiro não respeitar a regra dos blogs/comments curtos.
Sou eu.Assim.
Beijos para ti.
 
Alfazema, são memórias de fins de guerra que eu não conheci, tempos não muito distantes em que estas mulheres criaram os filhos numa qualq aldeia do norte - podia ser do sul - sem máquina de lavar, sem amas, sem creches, às vezes sem luz, sem conforto, sem médico, sem nada ... mas educaram-nos com amor, com esmero, com carinho, com principios e fizeram deles HOMENS.
 
andei passeando por esta tua casa. E gostei. Soube bem. Fixei-me aqui pelalimpidez do texto e pela sua actualidade apesar de, aparentemente parecer pertencer a outra época. Bom f.s. Bj de luz e paz
 
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